Patinando com o Alter-Ego |
14.10.05
![]() # De dois em dois meses, Giuseppe Malatesta, o stronzo, vai à barbearia do Seu Ordálio Grillo cuidar do visual. Barbearia é modo gentil de dizer, pois todo mundo chama aquele infecto estabelecimento de Pela-Macaco do Grilo. Lá no Pela-Macaco, um corte de cabelo custa cinco dinheiros. Se o Grilo também aparar de leve a barba do cliente, com gorjeta e tudo a despesa fica em oito dinheirinhos, não mais. Por isso, por avareza pura e simples, é que o stronzo é fiel freqüentador do ascoso Pela-Macaco do Grilo. "No, no, no se trata de ser 'mesquinhoso avarentozo'!" - defende-se Malatesta. Descaradamente, ele ainda justifica sua preferência ao declarar que Seu Ordálio Grillo é boa praça. O exemplo não tarda. Quando encontra um espaguete seco, uma azeitoninha murcha, qualquer coisinha enfiada na barba do stronzo, Seu Ordálio Grillo não zomba nem humilha, apenas dá uma gargalhada e pergunta se é pra jogar fora ou devolver o achado. Que humorismo ralé! E as tesouras enferrujadas, os pentes incrustados de sujeira, as capas protetoras feitas de velhas cortinas de banheiro? E os espelhos carcomidos, bacentos, que deformam as imagens e provocam náuseas? E a cadeira Ferranti, de 1947, forrada com napa vermelha reaproveitada de um sofá do antigo Cine Oásis? Bem, tudo é medonho, mas assustadora mesmo é a própria figura do Seu Ordálio Gillo. O homem tem a pele esverdeada, olheiras negras e um cabelo empastado com brilhantina ordinária comprada aos quilos. Uma vez, inclusive, eu comentei: "Aquele pobre homem de pele verde deve padecer de alguma doença muito grave". O stronzo se apressou a retrucar: "No, no, Steinway. É que ele faz quella alimentação macroberótica!"
"Macroberótica, Malatesta? Há, há, há! Macroberótica? Há, há, há!" Então ele me repreendeu, com ar seriíssimo:"Fala baixo que tem mulher perto!" ![]() |